FIAPO DE JACA

August 26, 2008

BALANÇO DAS OLIMPÍADAS

Eu estava determinado a não falar nada sobre as Olimpíadas. No entanto, esse vídeo me fez quebrar a promessa. Muito bom. Pelo tanto de visualizações que o mesmo teve, meio mundo já deve conhecê-lo. Sacanagem então, de ninguém ter me indicado essa pérola, que descobri por acaso. Se o mesmo aconteceu com você, não fique assim, acontece.


Ps1: Se aparecer por aí a infame mensagem “We’re sorry, this video is no longer available”, seja brasileiro e não desista. Tente novamente após apertar F5, até a coisa funcionar.

Ps2: O vídeo foi uma montagem em cima do ótimo filme “A Queda! As Últimas Horas de Hitler.” Pra quem ainda não viu, recomendo.

Tuca Hernandes | Esporte, Vídeo | 10:11 am | Comente que eu te comento (3)

August 19, 2008

DESEJOS DE GRÁVIDA

Todos nós conhecemos histórias de grávidas que acordam de madrugada, torturadas por uma vontade de comer algo bizarro:

- Amor…
- O quê? - resmunga o marido, bem atordoado pelo sono
- Eu tô com desejo…
- Sei… O que é dessa vez?
- Então, eu quero comer feijão com goiabada e leite condensado.
- Putz… Pode ser amanhã?
- Tem que ser agora! Ou você quer que o nosso filho nasça com cara de feijão com goiabada e leite condensado?
- Ok, ok… Já volto.

Mas os desejos poderiam ser piores. Já imaginou a mulher surpreender o companheiro, no meio da madrugada, tomada por um desejo incontrolável em saciar outros sentidos, além do paladar?

- Amor…
- O quê?
- Eu tô com desejo…
- Ok, ok… é feijão com goiabada e leite condensado de novo?
- Não… Sabe a Banda Calypso?
- Sei. O que é que tem?
- Então, eu quero ver um DVD de um show deles.
- Como assim? Tá brincando comigo, né? Só pode ser. Você sempre odiou esse tipo de música.
- Pois é. Acontece que agora me veio esse desejo, do nada. Pode isso???
- Ok, amanhã eu compro esse tal DVD pra você, tudo bem?
- Eu quero ver agora! Agora!
- Mas onde eu vou encontrar loja aberta nesse horário? Olha, deve ter uns vídeos deles no youtube e…
- Tem que ser o DVD! E original! Agora!
- Mas…
- Ou você quer que o nosso filho nasça com a cara do Ximbinha? Hein, hein?
- Ok, ok… tô indo…

Assim, outras vontades poderiam surgir:

- Amor, tô com desejo de votar no Maluf.
- Amor, tô com desejo de ouvir um discurso do Fidel Castro, na íntegra.
- Amor, tô com desejo de ler a biografia da Narcisa Tamborindeguy pros mendigos lá da praça.
- Amor, tô com desejo de publicar um post pago sobre ornitorrincos da caatinga. Agora!

Pensando bem, feijão com goiabada e leite condensado não deve ser tão ruim assim.

Tuca Hernandes | Comportamento | 7:00 am | Comente que eu te comento (6)

August 14, 2008

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Os dois estavam prestes a sair. Antes, ele resolveu se despedir de um amigo no messenger, com quem não papeava há muito tempo. Ela, que não costumava ser bisbilhoteira, acabou vendo, sem querer, um trecho da conversa. Mais tarde, no carro, ela resolveu puxar o assunto:

- Então, tava muito engraçada a conversa que você teve com seu amigo no messenger? - ela perguntou, irônica.
- Não, nem um pouco. Papo normal. Por quê a curiosidade?
- Bem, estranho. Pois você não parava de escrever “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” pra cada frase que o seu amigo teclava.
- Iiiih… Agora deu de ficar me espionando?
- Desculpe, não resisti… A tela estava tão ao alcance dos meus olhos… Enfim, que hipocrisia, hein?
- Do que você está falando?
- Dos seus “HAHAHAHAHAHAHAHAHA”, ora essa! Bizarro isso, ver uma pessoa teclando “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” sem que saia um mínimo sorriso do rosto dela.
- Olha, isso é problema meu, ok?
- Sim, e meu também.
- Ué, como assim?
- Eu fico aqui pensando: e aqueles “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” que ele vive me enviando pelo msn? Será que são todos falsos também, sem sorriso no rosto? Será? Não sei… De qualquer forma, perdi a confiança em você.
- Nossa, como você complica as coisas, hein?
- Ok, e se um dia, na hora da transa, eu desse a entender que fingi o orgasmo? Será que, depois disso, você não começaria a desconfiar de todos os outros que tive com você?
- Olha, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- Tem sim, ora essa. São situações em que um é iludido pelo outro. Eu, que estou fazendo você gargalhar. E você, que me fez gozar.
- Ok, ok… eu admito. Eu sou uma farsa do “HAHAHAHAHAHAHAHAHA”. Juro que, daqui por diante, serei mais sincero com você, reagindo só na base do “rs”.
- Ok, e eu também.
- No messenger?
- Não, na cama.

August 3, 2008

EU, O LIXEIRO

“O que você quer ser quando crescer?” Eu, na maturidade de meus cinco anos, respondia, na lata: “Lixeiro!” Todos achavam graça naquele loirinho de cabelos encaracolados - sim, já fui bonitinho, acreditem -, convicto na sua escolha. Astronauta? Jogador de Futebol? Ator de Hollywood? Que nada, pra mim, o barato mesmo era ser lixeiro. Eu lembro de ficar pendurado na grade da janela da sala, dessas que dão vista para a rua, observando aqueles caras de uniforme laranja, pendurados no caminhão de coleta. Sentia uma pontinha de inveja ao vê-los subindo e descendo de seus postos, correndo para recolherem os sacos de lixo depositados na calçada. Era algo divertido, que certamente meus pais não deixariam que eu fizesse. Para tanto, eu deveria aguardar uma eternidade, até completar 18 anos.

Claro que, após assoprar as 18 velinhas de meu aniversário, anos atrás, o meu projeto de me tornar lixeiro já era algo um tanto quanto arquivado. E sem ressentimentos. Mas até hoje eu imagino o que aconteceria se eu tivesse me mantido fiel à essa convicção. Afinal, conheço várias pessoas que realmente se tornaram aquilo que projetaram na infância - se bobear, até o Sérgio Naya, toda vez que construía seus frágeis predinhos de areia na praia. Incompreendido pela maioria, realizado na minha profissão, seria bem capaz que muitos viessem me perguntar a razão de minha escolha, bem como a teimosia em seguir adiante nela:

- Mas, veja bem, rapaz. Você veio de uma família com condições de pagar seus estudos. Poderia ter se formado numa coisa bacana, como medicina veterinária, por exemplo. Ou então, poderia estar trabalhando com algo relacionado à internet. E ganhando bem mais do que agora. Mas não, taí, trabalhando como… lixeiro?
- E daí? Eu gosto, é divertido, sempre quis isso. Você não entende que, desde quando eu era criança…
- Tá, já sei toda a estória. Que você ficava na janela, observando fascinado os lixeiros trabalharem etc e tal. Mas você era criança, rapaz. Não aconteceu nada mais nessa vida que chamasse a sua atenção?
- Bem, até que teve algo. Mas eu jamais teria condições de me dedicar a isso.
- Por quê?
- Ah, eu cresci demais. Ninguém me aceitaria como anão de comercial.

De qualquer forma, admiro aqueles que insistem naquilo que acreditam, independente do quanto isso poderá remunerar no fim do mês. Não importando se a opção é ou não controversa para os olhos de quem optou pelo convencional. Vale o clichê: o que importa mesmo nessa vida é ser feliz, fiel consigo mesmo. Pelo meu lado, cá entre nós, eu continuo considerando a possibilidade de trabalhar como lixeiro. Mas desde que seja em Mônaco, é claro.

July 27, 2008

BATMAN FEIRA DA FRUTA - AINDA O MELHOR


Muito se fala a respeito do novo Batman, com a grande maioria das resenhas abordando o filme como se fosse a última obra-prima da humanidade. No entanto, no meio da chuva de confetes, peço licença para dizer que trata-se de um filme apenas “ok”. E aproveito ainda para analisar uma outra obra, baseada no mesmo personagem, subestimada pelo público em geral, equivocadamente classificada como “trash”. Estou falando do excelente “Batman - Feira da Fruta”, essa sim uma obra-prima que, nos seus vinte e poucos minutos de duração, observada mais de perto, nos revela mais sobre as questões humanas do que todos os filmes de um Bergman, por exemplo.

É de se estranhar que ninguém tenha percebido as inúmeras mensagens que “Batman - Feira da Fruta” apresenta, como se a humanidade tivesse perdido o pouco de sensibilidade que ainda restara nesses tempos brutos que vivemos. Pouco ou quase nada se discutiu a respeito do simbolismo fálico que acompanha toda a obra, peça-chave para o entendimento do restante: a ameaça constante sobre o pênis do herói. Acuado pela obsessão do vilão Coringa em arrancar o simbolo máximo de sua virilidade (”Vô arrancá o pinto do Bátema!”), o homem-morcego acaba vivendo o paradoxo de Stevers-Liewness, cujo conceito oscila entre a necessidade de se preservar da cintura pra baixo e os deveres morais no que se refere à proteção dos mais fracos. Como um personagem trágico, assombrado pelos mesmos fantasmas que trazem o perfil de uma Lorena Bobbit, Batman precisa restabelecer a ordem que ameaça capitular diante de seus olhos, tanto no âmbito físico, quanto no espiritual.

Apesar desses dilemas, ele consegue ainda preservar valores que, sem a devida vigilância, iriam se extingüir nas mãos de uma pessoa com menos autoridade moral. Cabe a ele, por exemplo, zelar pela educação de seu pupilo, Robin, como um mestre que não deixa o discípulo seguir o caminho da degradação (”Modere o seu linguajar, Robin!”, diz um paternal Batman, cada vez que ouve um palavrão do seu parceiro.). Nessa constante tensão, digna dos dilemas das obras do consagrado autor franco-alemão Hans Gerbwig, surge o desejo sexual entre o protetor e o protegido, onde o ativo inverte o perfil do passivo e vice-versa. Com o ato prestes a ser consumado, Batman toma para si a responsabilidade de manter a ordem higiênico-sanitária que permeia a relação, ao perguntar para um estranho se o mesmo possui camisinhas, pois fará amor com Robin mais tarde, no fim da noite. Mais reverberativo na consciência do pós-modernismo gótico, impossível.

Outros temas chegam a nós nessa obra, na forma de socos certeiros no estômago de nossos preconceitos. Um dos mais contundentes é a questão da sexualidade na terceira idade, personificada aqui pela tia do herói, uma senhora cuja libido não ficaria atrás da de uma Madame Bovary no cio. Ou então, a de uma Lolita que atravessou os anos com a sexualidade intacta. Todos querem possuí-la. E ela serve a todos, sem distinção, incluindo aí o desvairado Coringa, que fica extasiado ao saber que compartilhará as intimidades de alcova com ela (”Vô comê a tia do Bátema!!! Uhuuuu!!!!”, comemora o vilão, feito um Mefisto fanfarrão.) A mensagem aqui é clara: todos podem exercer a sua sexualidade, sem restrições de idade, origem ou caráter. Alfred Kinsey aprovaria a proposta aqui, orgulhosamente.

Enfim, mais linhas seriam necessárias para explicar definitivamente a obra-prima “Batman - Feira da Fruta”. Quem sabe alguém se disponha a isso, em um livro com mais de 500 páginas. Esse texto no máximo, procurou alertar para a injustiça com a qual a história vem sendo tratada pelo público em geral, ofuscada no momento por um filme menor, que é o novo Batman nos cinemas. Em “Batman - Cavaleiro das Trevas”, vemos um desfile tedioso de clichês que parecem saídos da mente do redator menos inspirado do Zorra Total: vilão implacável versus mocinho mascarado em crise. Novidade zero. Já em “Batman - Feira da Fruta”, as alegorias preenchem cada segundo da saga, levantando questionamentos sob óticas que jamais suspeitamos. Genial. E viva o “baile dos enxutos”!

Tuca Hernandes | Cinema | 11:44 pm | Comente que eu te comento (18)

July 9, 2008

FARFALHÕES AFIBULADOS

Ele avisou que, naquele papel, estava todo o sentimento que sentia por ela. “É um poema. Escrito à mão mesmo, à moda antiga, pra que a verdade de meu coração seja mais evidente.”, avisou, delicadamente. Com uma mal disfarçada discrição, tentando sufocar a ansiedade de enfim ler o primeiro poema que alguém dedicara a ela, respirou fundo antes de pousar seus olhos sobre aquelas palavras. Mas, um momento. Que garranchos eram aqueles? Indecifráveis. Ah, sim. Lembrou de imediato que o seu novo namorado era um médico. Assim, aquilo, que deveria ser um soneto, poderia perfeitamente passar por uma receita médica, não fosse a ausência do carimbo com a assinatura.

“Lindo, lindo! Amei!”, disse ela, cobrindo-o de beijos, mesmo não reconhecendo letra alguma daquilo que tentara ler. No fim das contas, vale a intenção, concluiu. “Sério? Gostou? Puxa…”, ele reagiu animado, com o sorriso de quem havia concluído com sucesso uma cirurgia delicadíssima. Minutos depois, antes de seguir para mais um plantão, ele prometeu que aquele seria apenas o primeiro de uma série de poemas. E escritos à mão, é claro. “Aiai…”, ela engoliu aquela promessa, como se fosse uma ameaça, apesar de deixá-la naturalmente envaidecida.

Parecia que o sucesso daquele primeiro poema havia acordado o lado lírico dele. Agora, todos os dias, escrevia algo pra sua musa, que dava um imenso sorriso toda vez que lia aquelas palavras, mesmo não entendendo coisa alguma daquilo. Garranchos e mais garranchos. Vez ou outra, com muito esforço, conseguia enxergar um “amor” ali. Um “musa” acolá. Ou não? Será? Quem não a conhecesse, ao ver aquela pasta onde guardava os poemas dele, iria imaginar que ela seria uma pessoa muito doente, cheia de receitas médicas.

Semanas depois, cansada de presentear sorrisos e beijos apenas por causa da intenção alheia, ela resolveu acabar com o mistério: o que afinal traziam aqueles garranchos? Seriam eles dignos de um Drummond? Um Neruda? Vinícius de Moraes? Foi ao lugar mais adequado para decifrar tudo aquilo: o balcão da farmácia. Um senhor simpático e paciente a atendeu, concordando em ler alguns dos trechos ali. Com o coração palpitante, como se um baú de tesouros estivesse sendo enfim aberto, ela ouviu com máxima atenção os primeiros versos:

Farfalhões afibulados me infestam do fastio afã / No fundo, afago o fogo que me fere o falho filho.” “Quem me dera musas que de ti resplandecessem ourives / Catadupas em cornucópios circunspectos de aspectos na alcatéia amorfa.” “A barca de teu ventre singra o aço de miríades inférteis / Decerto, deuses cospem lírios nefastos no giz de suas retinas.

Hein?

Mais tarde, ao receber o poema daquela noite, ela sorriu, como sempre. Afinal, ele era um bom médico.

July 2, 2008

MULHER MELANCIA? AQUI NÃO!

- Rapaz, sabe uma coisa que eu jamais faria no meu blog? Seria falar na Mulher Melancia.
- Ué, porque não? Tô te estranhando… não gosta mais da coisa? Não curte a Mulher Melancia?
- Até que gosto da Mulher Melancia. Visualmente falando, sabe? Acontece que não concordo muito com essa exposição exagerada. Falam dela como se fosse a fêmea definitiva de nossos tempos… É Mulher Melancia pra lá, Mulher Melancia pra cá… enche o saco!
- Ah, eu não me importo. Por mim, podem falar da Mulher Melancia o dia inteiro, desde que acompanhado de fotos ou vídeo, que não me importo. Nem um pouco. Que venha a Mulher Melancia! Se eu tivesse um blog, como você, eu ficaria de calos nos dedos, de tanto escrever sobre a Mulher Melancia.
- Você seria mais um que faria propaganda de graça pra Mulher Melancia. Cada vez que alguém publica o termo “Mulher Melancia” num blog, o Google já abocanha, contabilizando uma fonte a mais dentre as milhares que já existem para os que buscam por “Mulher Melancia”. E você sabe, quanto mais resultados um termo tem no Google, mais popular fica o responsável pelo mesmo. E é isso que vem acontecendo com a Mulher Melancia.
- Que é popular por justo merecimento. A Mulher Melancia merece! E tem outra, já que existe tanta busca no Google pela Mulher Melancia, não seria bom que você escrevesse um texto com bastante “Mulher Melancia” só pra que aumente as chances de seu blog ser encontrado nas buscas? A Mulher Melancia não seria útil nesse sentido, pelo menos?
- Então, meu amigo. Aí é que está a questão em relação à Mulher Melancia. Se eu agisse desse modo, colocando um monte de “Mulher Melancia” até o ponto final, eu estaria ofendendo a inteligência dos leitores que acompanham o meu blog. Leitores esses que, definitivamente, como eu, não agüentam mais ouvir falar da Mulher Melancia. Prefiro continuar com meu estilo, sem apelar para as Mulheres Melancias da vida. Integridade, meu caro, que Mulher Melancia alguma vai arranhar.
- Ok, eu já entendi então, nada de Mulher Melancia no seu blog. Nem que isso signifique mais gente encontrando seus textos pelo Google. Nem que a própria Mulher Melancia, numa ego search, encontre você.
- Exatamente, Mulher Melancia, só nos blogs dos desesperados por visitação. Não escreverei uma linha sequer sobre ela, a Mulher Melancia.
- Uma pena, pois você poderia falar tanta coisa interessante envolvendo a Mulher Melancia.
- O quê de tão interessante eu poderia falar sobre a Mulher Melancia???
- Essa nossa conversa, por exemplo. Eu achei interessante e tem a Mulher Melancia como tema principal.
- Ah, eu falaria sobre o teor do nosso assunto, mas jamais mencionaria o nome da Mulher Melancia. Chega de dar moral no google pra essas celebridades de segunda linha, feito a Mulher Melancia. Pra despistar, ao invés de “Mulher Melancia”, eu colocaria outra coisa, sabe?
- Outra coisa no lugar da Mulher Melancia? O quê, por exemplo?
- Ah, sei lá. A Mulher Moranguinho?

June 29, 2008

AMOR LTDA

O fato dele chegar tarde em casa todos os dias não era a única pulga que a atormentava atrás da orelha. Além disso, depois de literalmente engolir o jantar, ele ia direto para o notebook, de onde ficava teclando durante horas. Assim, dormia pouco e acordava bem cedo. Ela ficava intrigada ao vê-lo sair de casa bem disposto, apesar das poucas horas de sono. Parecia motivado, rumo a um encontro que o animava. “Aí tem”, as pulgas atrás da orelha gritavam em coro, cada vez mais. Cansada de mal conversar com o marido, cada vez mais sentindo-se uma figurante na vida dele, viu que era hora de ter AQUELA conversa:

- Luiz Mário, a gente precisa conversar…
- Tá, tá… Mas hoje não vai dar, tenho que responder a uns e-mails do trabalho, que vão me tomar um tempo considerável. Amanhã a gente se fala, pode ser? Amanhã, não. Deixa eu ver… terça que vem, ok? - ele respondeu, ainda mastigando um resto de comida e já encaminhando-se para o notebook.
- Não, não pode ser. Tem que ser hoje!
- Hoje não vai dar, Maria Amélia, eu já falei… os e-mails…
- Sei, os e-mails… sei… Ela gosta das suas mensagens, né?
- Ela quem, Maria Amélia? -
- A sua amante, Luiz Mário. - pronto, chega de ficar calada, ela concluiu.
- Você tá maluca???
- Ah, eu tô maluca? Você não fala comigo há meses. Não comparece mais na cama. Chega tarde todos os dias. E só abre um sorriso quando sai dessa porta pra fora. Você nem se preocupa em disfarçar o seu caso e vem me dizer que estou maluca? Ah, faça-me o favor! Não sou besta, não! Chega!
- Bem, já que você tocou no assunto, é melhor eu abrir o jogo então… - ele disse, levantando-se da cadeira, desligando o notebook. Conversa séria pela frente. Tensa.
- Finalmente! Então, quem é ela? É do trabalho? Da rua?
- Bem, não é exatamente “ela” por quem ando apaixonado… - nisso, a face dela ficou branca. Com as pernas bambas. Teve que se apoiar no braço do sofá.
- Minha nossa! Tá, você é gay!!! Como eu fui burra! Burra! Tava na cara! O seu jeito de cruzar as pernas, o seu modo de pegar no garfo, o…
- Calma, calma! Não é nada disso, Maria Amélia!
- Ué, se não é “ela”, só pode ser “ele”, Luiz Mário. Se bem que existe algo intermediário… É um travesti?
- Não é uma pessoa… Bem, como eu vou explicar?
- Aiai, é um animal? Zoofilia, Luiz Mário? Faça-me o favor!!! - ela protestou, escandalizada, pegando no colo o poodle deles.
- Olha, não é um ser, entende?
- É um objeto, isso. Li dias desses uma matéria de pessoas que gostam de fazer sexo com objetos. Teve até o caso daquele ator que deu entrada no hospital com uma cenoura entalada lá atrás e…
- Não envolve sexo com nada e com ninguém, entende? É algo sublime… Que vai além da carne, sabe?
- Não, não sei.
- Como vou explicar, é difícil…
- Tente, ora essa.
- Ok, eu estou apaixonado… pelo meu trabalho. Pronto, é isso, Maria Amélia.
- Hein?
- Eu ia pensar numa maneira mais adequada de te explicar isso.
- Trabalho, Luiz Mário? Como assim?
- Eu amo o meu trabalho, de paixão. Não quero saber de mais nada.
- Nem de mim?
- De ninguém. Não quero mais perder o meu tempo com coisas irrelevantes.
- Como o nosso casamento?
- Sim.

Seguiu-se um longo discurso dele a respeito dos pontos mais interessantes de seu trabalho. Comovido, disse, entre lágrimas, que hoje mesmo tinha entregado uma planilha perfeita, que mostrava a evolução da gestão financeira do segunto trimestre, concluindo que o momento era de apostar no investment grade das filiais asiáticas da empresa. No mais, os olhos brilhavam, fascinados a cada menção de estratégia bem-sucedida que ajudara a construir nos últimos meses. “Apaixonante, não?”

- Tá, e agora, o que fazemos? - ela perguntou, ainda desconcertada.
- Você fica aqui, levando a sua vida. E eu, no escritório.
- Você vai dormir lá?
- Ué, porque não? É lá que vejo a minha vida fazer sentido. É lá que tenho vivido os momentos mais felizes da minha existência. - ele admitiu, enquanto lançava um olhar terno para o seu notebook.
- Eu quero o divórcio! Chega!
- Tudo bem. - concordou, impassível.
- Olha, pra mim, você não existe mais. Se quiser, pode ir agora mesmo pro escritório. - ela disse, com um ar de desprezo.
- Hum… Não seria má idéia… Eu já tenho a chave de lá…
- Então vai, Luiz Mário! VAI!
- Putz… hoje não vai dar.
- O que foi?
- Os e-mails, lembra? É muita coisa. Vou perder muito tempo daqui até a empresa. Bem, com licença.

E lá foi ele para o notebook, com aquele olhar de colegial fascinado pelo primeiro amor.

June 25, 2008

SÉRIES? HOJE NÃO, OBRIGADO

Em termos de cultura pop, dizem por aí o melhor da vida está nos seriados. Do roteiro ao tratamento da imagem, muitas séries alcançaram um nível de excelência que em nada fica devendo aos filmes mais decentes lá de Hollywood. Bem, pode ser, quem sabe. Confesso que não tenho acompanhado série alguma, mesmo sabendo que estou perdendo momentos preciosos da minha vida ao ignorar aquela história genial que - cá entre nós- em nada vai mudar a minha existência. A todo momento, os antenados de plantão dizem coisas como:

- CARACA! Eu hoje vi o quinto episódio da sétima temporada de “Desperate Lost Houses”!!! Teve uma reviravolta, onde o pai da amante do John, após ser torturado pelo presidente dos EUA, revelou ser uma entidade asteca disfarçada de humano, só pra roubar os códigos que vão abrir pra um outro portal que…
- … que o quê?
- Putz, então… só no próximo episódio é que vão revelar o mistério.

Muitos amigos com os quais me identifico pelas idéias adoram esse mundo. Mesmo assim, eu prefiro continuar de fora, por uma razão muito simples: receio de viciar. Mesmo sabendo que isso me custará falta de assunto em algumas rodas de conversa, melhor assim. Afinal, quero continuar reservando meu limitado tempo livre pra coisas mais interessantes, a meu ver. Como sexo, por exemplo.

Ps: ok, a exceção, como sempre, fica pro meu São Seinfeld de Todas as Noites. Todas as temporadas, em DVDs originaizinhos da silva, aqui em casa. Yeah!

Tuca Hernandes | Meu Umbigo, Cultura Pop | 11:54 pm | Comente que eu te comento (2)

June 23, 2008

ZEZECO E PILIQUINHA

Causava impressão o tamanho daquela mulher, horizontalmente falando. Decerto que ela era mais uma paciente destinada a uma cirurgia de redução de estômago, como as outras duas que estavam na sala de espera daquele consultório. Dos pacientes que iriam se consultar com o hepatologista que atendia no mesmo lugar, parece que só havia ele mesmo, que estava aguardando por um transplante de fígado há meses. Mesmo sentindo-se péssimo pelo estado avançado de sua cirrose, conseguiu ter pena daquela mulher enorme que acabara de ver. E que parecia ter algo familiar na fisionomia poluída de gordura, lembrar alguém, sabe-se lá quem. “Ela me lembra a… não, não pode ser… impossível…” O mesmo ela parecia sentir em relação a ele, enquanto o encarava com a mesma indagação, desconcertada: “Ele me lembra o… não, não pode ser… impossível…”

Durante longos minutos, um ia medindo o outro, timidamente, tomando o cuidado para que os olhares não se encontrassem por muitos segundos. Um festival de canto de olhos e “não, não pode ser… impossível…” Até que um médico apareceu na entrada do corredor, anunciando o próximo paciente:

- José Carlos Pinheiros Verter!

A mulher encarou de vez aquele homem de aparência acabada, desconcertada:

- Zezeco! É você!!!
- Piliquinha! É você!!!

Zezeco e Piliquinha. Há trinta anos, o casal mais popular de Mequetrefe da Conceição, cidadezinha ao norte do Mato Grosso. Lindos e promissores, apaixonadíssimos um pelo outro, pareciam um desses casais de novela das oito. Ela, filha do homem mais rico da cidade. Ele, filho do prefeito, sucessor natural do pai. Encaixe perfeito. Quando faltava uma semana para o casamento, veio a notícia: a Piliquinha fora vista só de calcinha, entrando num canavial com mais três homens. Claro que, de papo em papo, toda a cidadezinha ficou sabendo do caso, inclusive o Zezeco, perplexo, que pensou estar de casório marcado com uma virgem. No segundo dia do escândalo, os dois, cada qual em horários e destinos diferentes, fugiram daquela cidade pra nunca mais voltarem. Ele não queria ser o corno da cidade. E ela, a vagabunda.

E assim, os dois foram se reencontrar trinta anos depois, naquela sala de espera de um consultório, irreconhecíveis. Ele pediu pro médico aguardar um pouco, pois ele tinha muito o que conversar com aquela mulher. Sentou-se ao lado dela, para que pudesse ver mais de perto aquele olhar que continuava o mesmo:

- Zezeco… mas… o que aconteceu com você? Olha o seu estado…
- É… meu fígado… Olha, eu comecei a beber pra te esquecer, sabe? Trinta anos bebendo, porre todos os dias, até chegar nesse ponto… cirrose… transplante de fígado… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E você?
- Comecei a comer toda vez que a saudade de você me apertava. Toda hora, quase todos os minutos do dia. Trinta anos nesse ritmo, Zezeco… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E Mequetrefe, como anda?
- E eu sei lá, Piliquinha? Fui embora pra nunca mais voltar. Naquela semana mesmo.
- Ah, é? Eu também. Que coisa… E você, se casou?
- Imagina… Tem como? Cada vez mais gorda e pensando numa só pessoa? Impossível. E você?
- Tá brincando, né? Que mulher iria querer um homem que fica de porre todas as noites, gritando “Piliquinha” sem parar?

Conversaram por mais uma meia hora, até que os médicos de ambos dessem um ultimato, pois não poderiam mais esperar. Nesse tempo, ela jurou que nunca entrou num canavial, ainda mais só de calcinha e com três homens. Se ele quisesse, poderia acompanhá-la num médico, de forma que se comprovasse a virgindade dela, ainda lá. Aquilo fora boato de gente invejosa, que queria vê-los separados, ela disse, entre lágrimas. Coisa de novela das oito. Não conseguiram chegar a uma conclusão sobre o porquê de nenhum ter procurado o outro nesses anos todos. Orgulho demais, decerto. Decidiram que não se encontrariam na saída e despediram-se trocando telefones.

Ela preferiu esperar por uma ligação dele. Pra espantar a tentação, jogou fora aquele papelzinho com o número. Se ele a amasse ainda, apesar de tudo, ligaria, ora essa. Ele considerou o mesmo, quando atirou no lixo o papel com o número dela, ainda na volta da consulta. Assim, por causa do orgulho mútuo, nunca mais souberam notícias um do outro. Ela conseguira emagrecer bem depois da cirurgia? Ele tinha conseguido um fígado novo? Não se conformavam com a dúvida, tomados por uma ansiedade absurda. Ele, de fígado novo, comendo feito um vira-lata esfomeado, sem parar, o dia inteiro. E ela, magrinha, tomando todas, enquanto berrava “Zezeco! Zezeco!”

Tuca Hernandes | Relacionamentos | 12:42 am | Comente que eu te comento (2)
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